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Gastronomia por Roberta Sudbrack
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03/12/2007 ..

Joelho ralado...



Não, não é uma espécie de receita típica da culinária alemã. Mas pode-se pegar essa deixa – dolorida, diga-se de passagem – para uma reflexão sobre as sensações. Culinárias ou não, a verdade é que nós, cozinheiros, nos movemos por elas. È claro que não se rala o joelho na intenção de encontrá-las, mas se acontecer...

É verdade, ralei o joelho igual criança no último final de semana! Rolei ribanceira – de terra! –abaixo, apoiada no joelho, um só, o que torna tudo muito pior. Frederico parecia não acreditar na cena. Parecia pensar: “Mas o que será que essa maluca está procurando? Sensações?”.

É isso! Claro que não fui procurar, como faço todos os dias na cozinha, mas a verdade é que a sensação de ralar o joelho, apesar de incômoda, foi deliciosa, infantil e apesar de tudo, extremamente prazerosa! Imediatamente me transportou para um tempo perdido, deixado de lado, mas não esquecido. Ah! Se Proust soubesse disso... Certamente teria ralado mais os joelhos nas escadarias do Ritz de Paris!

Imediatamente fiz uma ponte com a gastronomia e as suas pretensões. Foi inevitável relembrar o rosto das pessoas me dizendo que a comida, um prato específico, um tempero ou um aroma, foram capazes de transportá-lo há um tempo perdido. Aquela sensação, dolorosa à primeira mordida, de ralar os joelhos depois de adulta, teve exatamente esse sentido na minha vida! Foi muito interessante desmembrar as diversas sensações de um acontecido bizarro como esse e chegar à conclusão de que a simplicidade do acontecimento foi, afinal, a parte mais molhadinha desse bolo!

Agora tenho convivido com as casquinhas. Não as do bolo, mas as da ferida. Que apesar de incômodas tem lá o seu lado interessante também. Quem não puxava, quando criança, as casquinhas antes de cicatrizar? Mais uma viagem!

Sinal de que na vida e na gastronomia, nenhum ingrediente é tão importante quanto as simples sensações...

Até!
04/12/2007 ..

Olha esse cheiro...



Existem expressões que por menos ortodoxas ou corretas que sejam a gente acaba incorporando para sempre ao nosso vocabulário. Esse é uma delas! Nunca me vi dizendo no calor da cozinha: “Sinta esse cheiro!”. Fica até esquisito, meio aristocrático demais para o momento! Certas ou não, os professores de plantão que me perdoem, mas elas acabam se tornando muito mais naturais ao nosso dia-a-dia.

Essa expressão, veja bem, eu diria que é um estágio mais profundo da visão! Ver o cheiro na minha humilde opinião de cozinheira, significa muito mais do que simplesmente sentir o cheiro. Ver o cheiro é um convite vip, com direito a pulseirinha cintilante colorida, para uma viagem de reflexão e entrega pelas entranhas dos aromas. É uma pesquisa muito mais sentimental e envolvente através das sensações aromáticas. Ver o cheiro significa materializar o cheiro, significa quase, tocar o cheiro! Perceber suas nuances, suas texturas, e até suas manias e idiossincrasias!

Ver o cheiro é tão profundo quanto criar o cheiro e está intrinsecamente ligado à doação e à escolha. Criar o cheiro depende de entrega, como todo o ato de cozinhar. Seja ele profissional ou amoroso, ou os dois, o que é melhor ainda! Para criar algo tão simples e ao mesmo tempo tão profundo, a entrega é o ponto de partida. No mesmo grau de importância está a escolha. A escolha do produto, nada mais sagrado! O respeito, a deferência e a postura em relação a ele são os fatores fundamentais e decisivos para a cor da pulseirinha vip que lhe caberá!

Até!
07/12/2007 ..

Ilhada em frente ao computador...



Já me vi em situações engraçadas nessa vida. Presa dentro de casa porque alguém levou as chaves por engano ou passando uma temporada de férias na praia ilhada dentro de casa por causa da chuva. Coisas desse tipo. Mas ilhada na frente do computador foi o fim!

Percebi o quanto estamos realmente atados – quase como no filme do Almodóvar! – a esse instrumento, antes considerado de trabalho, hoje, praticamente de vida! O quanto dependemos dele, quase que para respirar! Ontem atrasei entregas, não consegui sequer chegar até aqui para dar uma satisfação e coisas mais. Nem queiram saber! Fiquei irada com a situação, ira comparável a que sinto quando vejo um prato mal executado na minha cozinha! Daquelas que só pelo meu olhar, os meus cozinheiros já saem correndo!

Nunca joguei um prato longe na cozinha. Bem, é verdade que já joguei uma faca, a minha infelizmente! Mas foi um rompante de loucura, que já está sendo tratada na terapia! Enfim, prato nunca joguei. Além de considerar o excesso dos excessos, meus pratos são caros e trabalho demais para comprá-los.

O provedor cismou que eu não havia pagado a mensalidade e simplesmente cortou o sinal. E eu só fui descobrir que o problema era esse depois de revirar o computador de ponta a cabeça e lá pelas dez na noite. Resultado: como conseguiria provar que paguei a mensalidade, se não conseguia acessar o meu banco? O silêncio foi a resposta da atendente. Nem ela conseguia pensar numa saída para esse impasse tecnológico! A verdade é que ontem, diante dessa impossibilidade técnica e de todas as outras, provavelmente eu teria jogado o meu primeiro prato, mas não na cozinha - o que é pior! – no computador!

No final o acontecido serviu para algumas reflexões. Sempre digo que mesmo as piores críticas, aquelas que primeiro te despertam a ira para só depois te induzirem ao raciocínio, devem servir como ponto de partida para a reflexão. No final a gente vai sempre encontrar alguma coisinha fora do lugar. Dessa vez encontrei um parafuso. Meu claro, precisando de descanso e de férias, a fim de salvar os pratos e a minha reputação!

Até!
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